Freud, Sigmund (1996qq). Esboço de psicanálise. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XXIII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1940[1938]).
A citação encontra-se no artigo “Esboço de psicanálise” (1940 [1938]), parte II, “O trabalho prático”, capítulo VII, intitulado “Um exemplo de trabalho psicanalítico”, páginas. 203-204. Freud retoma a mesma argumentação sustentada em 1900, no “Interpretação de Sonhos” (1900), quando evocou a peça Édipo rei, de Sófocles, e Hamlet de Shakespeare, pela primeira vez. Nesta ocasião, ambas servem-lhe para sustentar o caráter de universalidade que atribui ao complexo de Édipo. Aqui, Freud reafirma a importância deste complexo, tanto para a compreensão da neurose quanto para o campo psicanalítico; o reconhecimento do desejo edípico pela psicanálise já seria o suficiente para lhe valer um lugar na história da humanidade.
Pode-se ouvir objetar, por exemplo, que a lenda do rei Édipo não tem de fato nenhuma conexão com a construção feita pela análise: os casos são inteiramente diferentes, visto Édipo não saber que o homem a quem matara era seu pai e a mulher com que casara era sua mãe. O que não se leva em conta aí é que uma deformação desse tipo é inevitável se se faz uma tentativa de manejo poético do material, e que não há introdução de material estranho, mas apenas um emprego hábil dos fatores apresentados pelo tema. A ignorância de Édipo constitui representação legítima do estado inconsciente em que, para os adultos, toda a experiência caiu, e a força coercitiva do oráculo, que torna ou deveria tornar inocente o herói, é um reconhecimento da inevitabilidade do destino que condenou todo filho a passar pelo complexo de Édipo. Foi ainda ressaltado, por parte das fileiras psicanalíticas, quão facilmente o enigma de outro herói dramático, o procrastinador de Shakespeare, Hamlet, pode ser solucionado tendo como ponto de referência o complexo de Édipo, desde que o príncipe fracassou na tarefa de punir outrem pelo que coincidia com a substância de seu próprio desejo edipiano - em conseqüência do que a falta geral de compreensão por parte do mundo literário demonstrou quão pronto está o grosso da humanidade a aferrar-se às suas repressões infantis.
Entretanto, mais de um século antes do surgimento da Psicanálise, o filósofo francês Diderot deu testemunho da importância do complexo de Édipo, ao expressar a diferença entre os mundos primitivo e civilizado nesta frase: ‘Si le peti sauvage était abandonné à lui même, qu’il conservât toute son imbécilité, et qu’il réunît au peu de raison de l’enfant au berceau la violence des passions de l’homme de trente ans, il tordrait le col à son père et coucherait avec sa mère’. Aventuro-me a dizer que, se a Psicanálise não pudesse gabar-se de mais nenhuma realização além da descoberta do complexo de Édipo reprimido, só isso já lhe daria direito a ser incluída entre as preciosas nova aquisições da humanidade (Freud, 1996qq, p. 203-4).
Complexo de Édipo
29/10/2025 00:00