Complexo de Édipo - 74ª referência

Freud, Sigmund (1996oo). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise: Conferência XXXII - ansiedade e vida instintual. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1933[1932]).

A citação encontra-se em “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise” (1933 [1932]), na Conferência XXXII “Ansiedade e vida instintual”, páginas 89-90. Nesta citação, Freud aborda o papel do complexo de castração no declínio do complexo de Édipo. Para tal, é necessário que Freud retorne as suas considerações acerca do papel da angústia no recalque da libido dirigida à mãe, ou seja, do recalque do desejo incestuoso. Suas formulações anteriores definiam a angústia como proveniente do recalque, no entanto os dados clínicos demonstraram que a angústia, antes, era a causa do recalque. Assim, Freud reafirma o papel fundamental do complexo de castração no declínio do complexo de Édipo.

Isto porque recentemente estivemos examinando a forma como a ansiedade é gerada em determinadas fobias, que classificamos como histeria de angústia, e escolhemos casos nos quais estávamos lidando com a típica repressão de impulsos plenos de desejos oriundos do complexo de Édipo. Era de se esperar que encontrássemos uma catexia libidinal referente à mãe do menino, escolhida esta como objeto, a qual, em conseqüência da repressão, se teria mudado em ansiedade e agora emergia expressa em termos de sintomas, vinculada a um substituto de seu pai. Não posso mostrar-lhes os passos detalhados de uma investigação como esta; será suficiente dizer que o resultado surpreendente foi o oposto daquilo que esperávamos. Não era a repressão que criava a ansiedade; a ansiedade já existia antes; era a ansiedade que causava a repressão. Entretanto, que tipo de ansiedade pode ter sido? Somente ansiedade em face de uma ameaça de perigo externo - ou seja, ansiedade realística. É verdade que o menino sentia ansiedade em face de uma exigência feita por sua libido - nesse caso, ansiedade por estar apaixonado por sua mãe, assim, era, de fato, um caso de ansiedade neurótica. Mas este estar apaixonado só lhe aparecia como um perigo interno, o qual devia evitar, renunciando ao objeto, porque este suscitava uma situação externa de perigo. E, em todos os casos que examinamos, obtemos o mesmo resultado. Deve ser confessado que não estávamos preparados para constatar que o perigo instintual interno se revelaria fator determinante e preparação para uma situação de perigo externo, real.

Até agora, contudo não fizemos absolutamente qualquer menção de qual o perigo real que o menino teme, como conseqüência de estar apaixonado por sua mãe. O perigo é a punição de ser castrado, de perder seu órgão genital. Os senhores objetarão que, afinal de contas, isso não é um perigo real. Nossos meninos não são castrados porque estão apaixonados por suas mães, durante a fase do complexo de Édipo. O problema não pode ser eliminado de forma tão simples. Antes de mais nada, não se trata de a castração ser ou não ser realmente efetuada; o que é decisivo é que o perigo ameaça de fora e a criança acredita nele. Tem alguns motivos para isso, pois as pessoas ameaçam, muito freqüentemente, cortar fora o pênis da criança durante a fase fálica, na época do início da masturbação, e insinuações desse castigo devem encontrar com regularidade um reforço filogenético no menino. Suspeitamos que, durante o período primevo da família humana, a castração costumava ser usada, realmente, por um pai ciumento e cruel, nos meninos em crescimento, e que a circuncisão, que tão freqüentemente desempenha um papel nos ritos da puberdade entre povos primitivos, é um vestígio claramente identificável desse fato. Estamos conscientes de que nisto divergimos amplamente da opinião geral; mas devemos reafirmar a opinião de que o temor de castração é um dos motivos mais comuns e mais fortes para a repressão e, portanto, para a formação das neuroses. A análise de casos em que a circuncisão, embora não a castração, na verdade foi executada em meninos como cura ou castigo para a masturbação (essa ocorrência não é nada rara na sociedade anglo-americana), conferiu à nossa convicção o máximo grau de certeza. Nesse ponto, sentimo-nos muito tentados a nos aprofundar no complexo de castração; porém, ater-me-ei ao nosso assunto (Freud, 1996oo, p. 89-90).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00