Freud, Sigmund (1996gg). Um estudo autobiográfico. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XX. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1925[1924]).
A citação encontra-se em “Um estudo autobiográfico” (1925 [1924]) no capítulo VI, página 66. Nela Freud refere-se inicialmente à tragédia Édipo rei, onde encontra a expressão de sentimentos que ele havia encontrado tanto em si próprio quanto em seus pacientes: o amor incestuoso à mãe e o ódio ao pai, despertando o desejo parricida. Da mesma forma que Édipo assassinou seu pai e desposou sua mãe sem saber, tais desejos dos sujeitos são inconscientes. A sensibilidade de Freud à homologia entre a questão edípica e seus achados clínicos possibilitou que encontrasse na universalidade da literatura e na comoção que a tragédia provocava no público ao longo dos séculos a fundamentação para seus achados clínicos e estabelecesse o complexo de Édipo como universal.
Hamlet, outra peça aclamada, que perdura até os tempos atuais como um clássico, também tem como cerne o desejo incestuoso e parricida, porém de uma forma muito mais velada do que em Édipo rei. Isso porque aproximadamente dois mil anos separam as criações literárias e o recalque civilizatório avançara muito desde a época da tragédia, sendo Hamlet completamente atravessado pelo pensamento moderno, muito diferente do laço social da Grécia antiga.
Grande número de sugestões me ocorreu a partir do complexo de Édipo, cuja ubiqüidade gradativamente comecei a compreender. A escolha do poeta, ou sua invenção, de um assunto tão terrível parecia enigmática, assim como o efeito esmagador de seu tratamento dramático, e a natureza geral de tais tragédias do destino. Mas tudo isso se tornou inteligível quando se compreendeu que uma lei universal da vida mental havia sido captada aqui em todo seu significado emocional. O destino e o oráculo nada mais eram do que materializações de uma necessidade interna; e o fato de o herói pecar sem seu conhecimento e contra suas intenções era evidentemente uma depressão certa da natureza inconsciente de suas tendências criminosas. A partir da compreensão dessa tragédia do destino só restava um passo para compreender uma tragédia de caráter - Hamlet, objeto de admiração por trezentos anos, sem que seu significado tivesse sido descoberto ou os motivos de seu autor adivinhados. Mal poderia haver a possibilidade de que essa criação neurótica do poeta viesse a malograr, como seus inúmeros companheiros da vida real, sobre o complexo de Édipo, pois Hamlet viu-se defrontado com a tarefa de tirar vingança de outro pelos dois feitos que são o tema dos desejos de Édipo; e diante daquela tarefa seu braço ficou paralisado pelo seu próprio obscuro sentimento de culpa. Shakespeare escreveu Hamlet logo após a morte do pai (Freud, 1996gg, p. 66).
Complexo de Édipo
29/10/2025 00:00