Complexo de Édipo - 39ª referência

Freud, Sigmund (1996w). Sonhos e telepatia. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1922).  

Análise de um sonho no qual a interpretação revela a presença dos desejos edípicos, embora de forma invertida ao do menino – desejo de morte direcionado à mãe e desejos incestuosos direcionados ao pai –, caracterizado como complexo de Édipo feminino.

Ao final do sonho, que se acha claramente eivado de ansiedade, ela cai do leito. Esta é uma nova representação do nascimento. A investigação analítica do medo às alturas, do temor do impulso de arrojar-se de uma janela, sem dúvida conduziram, todos, à mesma conclusão.

Quem é o homem, de quem aquela que sonhou deseja ter um filho ou de cuja semelhança gostaria de ser a mãe? Freqüentemente tentou ver-lhe o rosto, mas o sonho jamais lhe permitiu isso; o homem tinha de permanecer incógnito. Sabemos de incontáveis análises o que significa esse ocultamento e a conclusão que basearíamos na analogia é certificada por outra afirmativa da sonhadora. Sob a influência do paraldeído, reconheceu certa vez o rosto do homem do sonho como o rosto do médico do hospital que a estava tratando e que nada significava para sua vida emocional consciente. O original, assim, nunca divulgou sua identidade, mas essa sua impressão em ‘transferência’ estabeleceu a conclusão de que anteriormente deve ter sido sempre o seu pai. Ferenczi [1917] está perfeitamente certo ao apontar que esses ‘sonhos do insuspeitante’ constituem valiosas fontes de informações, confirmando as conjecturas da análise. Aquela que sonhou era a mais velha de doze filhos; quantas vezes não deve ter sofrido as dores do ciúme e do desapontamento, quando não era ela, e sim a mãe, que conseguia do pai o filho por que ansiava!

A sonhadora muito corretamente imaginou que suas primeiras lembranças da infância seriam valiosas para a interpretação de seu sonho precoce e recorrente. Na primeira cena, antes de contar um ano de idade, enquanto estava sentada em seu carrinho, viu dois cavalos a seu lado, um deles olhando para ela. Descreve-o como sendo sua mais vívida experiência; teve a impressão de tratar-se de um ser humano. É um sentimento que só podemos compreender se presumirmos que os dois cavalos representavam, neste caso, como é tão freqüente, um casal: o pai e a mãe. Foi, por assim dizer, um vislumbre de totemismo infantil. Se pudéssemos, perguntaríamos à autora se o cavalo castanho que a olhava tão humanamente não poderia ser identificado, pela cor, com seu pai. A segunda recordação estava associativamente vinculada à primeira mediante o mesmo olhar ‘compreensivo’. Tomar o passarinho na mão, contudo, recorda ao analista, que possui opiniões preconcebidas próprias, de um aspecto no sonho em que a mão da mulher estava em contato com outro símbolo fálico.

As duas lembranças seguintes são da mesma categoria e impõem exigências ainda mais fáceis ao intérprete. A mãe a gritar durante o parto recordou diretamente a filha dos porcos guinchando ao serem abatidos e levou-a no mesmo frenesi de piedade. Podemos, entretanto, também conjecturar que isso constituía uma relação violenta contra um irado desejo de morte dirigido contra a mãe.

Com tais indicações de ternura pelo pai, de contato com os órgãos genitais dele e de desejos de morte contra a mãe, fica esboçado o delineamento do complexo de Édipo feminino. A longa conservação de sua ignorância sobre assuntos sexuais e sua frigidez em um período posterior corroboram essas suposições. A autora da carta tornou-se em potencial (e, sem dúvida, realmente, por vezes) uma neurótica histérica. Para sua própria felicidade, as forças da vida carregaram-na consigo. Despertaram nela os sentimentos sexuais de mulher e trouxeram-lhe as alegrias da maternidade e a capacidade de trabalhar. Uma parte de sua libido, porém, ainda se aferra a seus pontos de fixação na infância; ela ainda tem o sonho que a arroja para fora do leito e a pune por sua escolha incestuosa de objeto com ‘danos de não pequena monta’ (Freud, 1996w, p. 219-221, grifos do original).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00