Complexo de Édipo - 38ª referência

Freud, Sigmund (1996v). Psicanálise e telepatia. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1941[1921]). 

A citação encontra-se em “Psicanálise e telepatia” (1941[1921]) no capítulo II, páginas 195-196. Freud relata o caso de um paciente que nutria fortes sentimentos ambivalentes com relação a sua noiva, que já tinha uma filha. Esta filha, após o término do noivado de sua mãe, tornou-se a noiva do paciente, cujo laço era mantido por seu complexo de Édipo.

Há alguns anos atrás procurou-me um jovem que me causou impressão particularmente simpática, e eu, assim, lhe dei preferência sobre alguns outros. Parecia estar envolvido com uma das mais conhecidas demi-mondaines e que desejava livrar-se dela, de vez que a relação o privava de toda independência de ação, mas era incapaz de fazê-lo. Consegui libertá-lo e, ao mesmo tempo, logrei uma plena compreensão de sua compulsão. Não muitos meses atrás noivara de modo normal e respeitável. A análise logo mostrou que a compulsão contra a qual estava lutando, não era a ligação com a demi-mondaine, mas com uma senhora casada de seu próprio círculo, com quem tivera uma liaison, desde o início da juventude. A demi-mondaines servia apenas de bode expiatório em quem podia satisfazer todos os sentimentos de vingança e ciúme que realmente se aplicavam à outra senhora. Segundo um modelo que nos é familiar, fizera uso do deslocamento para um novo objeto, a fim de escapar à inibição ocasionada por sua ambivalência.

Era hábito seu infligir os tormentos mais refinados à demi-mondaine, que se apaixonara por ele de uma maneira quase desprendida. Entretanto, quando não mais podia esconder seus sofrimentos, ele, por sua vez, transportava para ela a afeição que sentira pela mulher que amara desde a juventude; dava-lhe presentes e a aplacava, e o ciclo retomava seu curso. Quando enfim, sob a influência do tratamento, rompeu com ela, tornou-se claro o que estivera tentando conseguir por aquele comportamento em relação a esse sucedâneo de seu primeiro amor: a vingança com a tentativa de suicídio que fizera quando essa amada rejeitara suas propostas. Após a tentativa, conseguiu por fim vencer a relutância dela. Durante esse período do tratamento costumava visitar o famoso Schermann. Com base em amostras da letra da demi-mondaines, o grafologista repetidamente lhe disse, à guisa de interpretação, que ela se achava em seu último alento, que se encontrava à beira do suicídio e que certamente se mataria. Ela, contudo, assim não procedeu, mas arremessou de si suas fraquezas humanas e recordou os princípios de sua profissão e seus deveres para com o amigo oficial. Percebi com clareza que o homem milagroso havia simplesmente revelado a meu paciente o seu desejo mais íntimo.

Após descartar-se dessa figura espúria, meu paciente empreendeu seriamente a tarefa de libertar-se de seu vínculo real. Depreendi de seus sonhos um plano que estava formando, com o qual poderia escapar da relação com o seu primeiro amor sem causar-lhe demasiada mortificação ou prejuízos materiais. Ela tinha uma filha, que gostava muito do jovem amigo da família e ostensivamente nada sabia do papel secreto que desempenhava. Propunha-se agora a casar-se com essa jovem. Pouco depois, o esquema tornou-se consciente e o homem deu os primeiros passos para o pôr em funcionamento. Apoiei suas intenções, uma vez que o plano oferecia o que constituía uma possível saída de sua difícil situação, ainda que irregular. Dentro em pouco, porém, teve um sonho em que mostrava hostilidade pela jovem, e então, voltou a consultar Schermann; o grafologista informou que a jovem era infantil e neurótica, e ele não deveria casar-se com ela. Dessa vez, o grande observador da natureza humana estava certo. Ela, já então considerada como a fiancée do homem, comportava-se de maneira cada vez mais contraditória e decidiu-se que ela devia analisar-se. Em resultado da análise, o esquema de casamento foi abandonado. A jovem tinha completo conhecimento inconsciente das relações entre a mãe e o fiancé, achando-se ligada a ele apenas por causa de seu complexo de Édipo.

Por essa época, a análise interrompeu-se. O paciente achava-se livre e capaz de seguir seu próprio caminho no futuro. Escolheu para esposa uma moça respeitável fora de seu círculo familiar, à qual Schermann concedera um julgamento favorável. Esperemos que esteja certo mais uma vez (Freud, 1996v, p. 195-196, grifos do original).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00