Complexo de Édipo - 35ª referência

Freud, Sigmund (1996s). Ritual: estudos psicanalíticos. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1919).

A citação encontra-se em “Ritual: estudos psicanalíticos” (1919), páginas 281-282. Referência presente no prefácio ao livro de Theodor Reik, psicanalista da primeira geração de discípulos de Freud. No prefácio, Freud reafirma a centralidade do complexo de Édipo para a prática da psicanálise, considerado o complexo nuclear das neuroses, ao mesmo tempo reconhece o seu importante papel nas formações mais arcaicas da cultura, como a religião.

Em 1913, Otto Rank e Hanns Sachs, num trabalho extremamente interessante, juntaram os resultados conseguidos até então na aplicação da psicanálise às ciências mentais. Os ramos mais facilmente acessíveis dessas ciências parecem ser a mitologia e a história da literatura e da religião. Não se encontrou ainda a fórmula final que nos permita dar um lugar apropriado aos mitos nessa relação. Otto Rank, num grande volume sobre o complexo do incesto (1912), apresentou evidência do surpreendente fato de que a escolha do tema, particularmente nas obras dramáticas, é determinada principalmente pelo âmbito do que a psicanálise denominou de ‘complexo de Édipo’. Elaborando esse tema, com a maior variedade de modificações, distorções e disfarces, o dramaturgo procura ocupar-se das suas próprias e mais pessoais relações com esse tema emocional. É ao tentar dominar o complexo de Édipo - ou seja, a atitude emocional da pessoa em relação à sua família ou, em sentido mais restrito, em relação ao pai e à mãe - que o indivíduo neurótico chega ao pesar, sendo por esse motivo que aquele complexo forma habitualmente o núcleo da neurose. Não se deve a sua importância a qualquer conjunção ininteligível; a ênfase colocada na relação dos filhos com os pais é expressão de fatos biológicos, de que os jovens da raça humana atravessam um longo período de dependência e só lentamente alcançam a maturidade, bem como de que a sua capacidade de amar submete-se a um intrincado curso de desenvolvimento. Por conseguinte, a superação do complexo de Édipo coincide com o modo mais eficiente de dominar a herança arcaica e animal da humanidade. É verdade que essa herança compreende todas as forças que são exigidas no subseqüente desenvolvimento cultural do indivíduo, mas primeiro devem elas ser selecionadas e moldadas. Esse legado arcaico não se ajusta à utilização em propósitos da vida social civilizada na forma em que é herdado pelo indivíduo.

Para encontrar o ponto de partida para a concepção psicanalítica da vida religiosa, devemos ir um pouco além. O que é hoje a herança do indivíduo, foi no passado uma nova aquisição, e passou, de uma para a outra, por uma longa série de gerações. Assim, também o complexo de Édipo pode haver tido estádios de desenvolvimento, e o estudo da pré-história pode habilitar-nos a rastreá-los. A investigação sugere que a vida da família humana assumia, naqueles tempos remotos, uma forma muito diferente da que conhecemos hoje. E essa idéia é apoiada por descobertas fundamentadas em observações de raças primitivas contemporâneas. Se o material pré-histórico e etnológico sobre esse assunto é trabalhado psicanaliticamente, chegamos a um resultado inesperadamente preciso, a saber, o de que Deus Pai já uma vez caminhou sobre a terra em forma corporal e exerceu a sua soberania como chefe tribal da horda humana primeva, até que os seus filhos se uniram para matá-lo. Ademais, surge daí que esse crime de liberação e as reações a ele tiveram como resultado o aparecimento dos primeiros laços sociais, das restrições morais básicas e da mais antiga forma de religião, o totemismo. As religiões posteriores, porém, têm também o mesmo conteúdo, e, por um lado, preocupam-se em suprimir os vestígios daquele crime ou em expiá-lo, apresentando outras soluções para a luta entre pai e filhos, ao passo que, por outro lado, não podem evitar repetir uma vez mais a eliminação do pai. Conseqüentemente, um eco desse evento monstruoso, que obscureceu todo o curso do desenvolvimento humano, encontra-se também nos mitos (Freud, 1996s, p. 281-282).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00