Complexo de Édipo - 31ª referência

Freud, Sigmund (1996r). Uma criança é espancada - Uma contribuição a origem das perversões sexuais. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1919).

A citação encontra-se em “Uma criança é espancada - Uma contribuição a origem das perversões sexuais” (1919) no capítulo V, página 208. Neste artigo, Freud aponta para a existência de uma fantasia frequente, tanto nos casos de neurose obsessiva quanto de histeria, na qual uma criança seria espancada. Esta fantasia se configuraria muito cedo, antes da idade escolar e nunca depois do quinto ou sexto ano de vida, modificando-se ao longo do desenvolvimento da criança e, como evidenciado no trecho a seguir, consistindo em um resíduo do complexo de Édipo. Isso porque, inicialmente, o conteúdo da fantasia consiste em uma criança sendo espancada por um adulto, sendo que a criança que apanha nunca é a que cria a fantasia e sim uma outra, com frequência um irmão ou irmã, caso existam. Além disso, considerando a fantasia de meninas (Freud preferiu ater-se apenas a estes casos), o adulto indeterminado pode ser identificado como sendo seu pai. Dessa forma, a fase primitiva da fantasia “Uma criança é espancada” pode ser descrita como “O meu pai está batendo em uma criança” e, até mesmo, “O meu pai está batendo na criança que eu odeio”. No cerne desta fantasia, pode ser identificado o desejo da filha pelo pai, pois ela entende que se seu pai bate em outra criança e não nela, significa que seu pai não ama esta criança, apenas ela, daí o sentimento de prazer proveniente desta ideia. Por essa razão, Freud vincula a fantasia de espancamento ao complexo de Édipo.

A segunda fase da fantasia, na qual a criança que a cria também é a criança espancada resulta do sentimento de culpa que segundo Freud é de origem desconhecida, mas relacionada aos desejos incestuosos e sua permanência no inconsciente. Tanto na segunda fase quanto na terceira (na qual a criança que fantasia é apenas uma espectadora e seu pai foi substituído por alguma figura de autoridade), o amor incestuoso pelo pai encontra-se recalcado, porém permanece causando efeitos em sua vida anîmica, de forma que todas as três fases da fantasia de espancamento têm ligação direta com o complexo de Édipo.

Porque, na nossa opinião, o complexo de Édipo é o verdadeiro núcleo das neuroses e a sexualidade infantil que culmina nesse complexo no inconsciente representa a inclinação para o posterior desenvolvimento das neuroses no adulto. Dessa forma, a fantasia de espancamento e outras fixações perversas análogas também seriam apenas resíduos do complexo de Édipo, cicatrizes, por assim dizer, deixadas pelo processo que terminou, tal como o notório ‘sentimento de inferioridade’ corresponde a uma cicatriz narcísica do mesmo tipo (Freud, 1996r, p. 208).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00