Complexo de Édipo - 26ª referência

Freud, Sigmund (1996o). Conferências introdutórias sobre psicanálise (partes I e II). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XV. Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1917).

A citação encontra-se em “Conferências introdutórias sobre psicanálise” (1917 [1916-17]) na parte II - “Sonhos”, conferência XIII - “Aspectos arcaicos e infantilismo dos sonhos”, páginas 208-209. Neste trecho, Freud primeiramente descreve o processo do complexo de Édipo e, em seguida, menciona os escritores imaginativos como aqueles que engendraram - ainda que com algumas atenuações, que Freud destaca como sendo obras da censura psíquica - o complexo de Édipo em suas obras, em seus personagens.

Quando é ainda uma criança, um filho já começa a desenvolver afeição particular por sua mãe, a quem considera como pertencente a ele; começa a sentir o pai como rival que disputa sua única posse. E da mesma forma uma menininha considera sua mãe como uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa com o pai e que ocupa uma posição que ela mesma poderia muito bem ocupar [...] A essas atitudes chamamos de ‘complexo de Édipo’, visto que a lenda de Édipo materializa, com apenas uma leve atenuação, os dois desejos extremos originários na situação do filho – matar o pai e tomar a mãe como esposa. Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda a relação dos filhos com os pais: esta pode ser muito mais complexa. O complexo de Édipo, ademais disso, pode estar desenvolvido em maior ou menor intensidade, pode até mesmo estar invertido; mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criança (...).

Não se pode dizer que o mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigação psicanalítica por sua revelação do complexo de Édipo. Ao contrário, a descoberta provocou a mais violenta oposição entre adultos; e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este relacionamento emocional proscrito e tabu, compensaram seu débito mais tarde, subtraindo a este complexo o seu valor, por meio de reinterpretações tortuosas. Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ou encobrir. Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como destino inevitável. Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo, que tem sido repudiado na vida real, ter sido deixado a cargo dos escritores imaginativos, ter sido colocado, por assim dizer, livremente à sua disposição. Otto Rank [1912b] demonstrou, em cuidadoso estudo, como o complexo de Édipo proporcionou aos autores dramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações, atenuações e disfarces — isto é, com distorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura. Portanto, podemos também atribuir este complexo de Édipo às pessoas que sonham e foram suficientemente felizes para escapar a conflitos com seus pais em sua vida posterior [...] (Freud, 1996o, p. 208-9).

Complexo de Édipo

29/10/2025 00:00