A menina, o cão e Dom Quixote

Capítulo publicado no livro Lispectator - Celebrar Clarice Lispector

Escrever

“Entenda uma coisa: escrever nada tem a ver com literatura”, disse Clarice Lispector ao jovem jornalista e aspirante a escritor que havia sido encarregado de entrevista-la (citado por Castello, 1999, p.27). Se a literatura é uma acomodação de restos, a escrita é rasura, liturarius. A letra desenha a borda no furo do saber que a própria escrita produz, litoral, rasura de traço algum que lhe seja anterior. A escrita é, no real, o ravinamento do significado (LACAN, 2003/1971).

A escrita lispectoriana escapa a qualquer definição, não se alinha a nenhum cânone literário, nela não há propriamente uma trama, plot. Na escrita de Clarice, algo acontece. Esse acontecimento escapa a ela, aos personagens e ao leitor. “Eu escrevo simples. Eu não enfeito.” (TV Cultura, Panorama, 1977). Essa alegada simplicidade não deve ser confundida com singeleza ou ainda com simploriedade. “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.” (LISPECTOR, 2017/1977, p.47). Trata-se de algo que se atinge através de um trabalho de desbastamento, per via di levare, extraindo da matéria bruta da linguagem o real – ofício impossível, esse do escreve-dor.

(Continua...)

Ingrid Vorsatz

In JORGE, M. A. C. & GREGGIO, T. Lispectator. Celebrar Clarice Lispector. Rio de Janeiro, 7Letras, 2024, p.133-144.

https://7letras.com.br/livro/lispectator/

Literatura, Clarice Lispector